Um sonho de verão: 10 sugestões de comédia e ação

Nada como uns filmes mais descontraídos para assistir durante o verão. Relaxar, dar umas gargalhadas e ainda assim aproveitar uma boa sessão de cinema. Por norma, as comédias e filmes de ação são a receita mais eficaz: conseguem entreter ao mesmo tempo que - mesmo no mais longínquos dos backgrounds – nos presenteiam com uma mensagem positiva. Os anos 70, 80 e 90 são provavelmente as décadas mais ricas no que diz respeito à produção destas obras. Atualmente, é cada vez mais complicado encontrar uma boa comédia e/ou filme de ação sem que recaiam no lugar comum ou vazio do humor gratuito e cenas de CGI exageradas, sem grande estruturação e moral. Portanto, fica lançado o desafio no qual se baseia a seguinte lista, de blockbusters perfeitos para assistir no verão:

Animal House (1978): É visto como o pai de muitas das comédias contemporâneas, como é exemplo Superbad e There's Something About Mary.

Old School (2003): Dois amigos tentam recuperar os tempos gloriosos de universidade abrindo a sua própria fraternidade, porém percebemos que mais cedo ou mais tarde é importante abraçar o futuro e deixar o passado.



Superbad (2007): Produzido por Judd Apatow, com escrita de Seth Rogen e Evan Goldberg, é provavelmente umas das melhores comédias teen desta década, que não deixa ninguém sério.

Total Recall (1990): O filme retro-futurista, brinda-nos com Arnie no seu melhor e diversas figuras bizarras como uma mulher com três seios.

Jaws (1975): É já mítico, mas não é por isso que não deve ser mencionado, a obra de Spielberg continua a ser uma boa escolha, entre sci-fi e ação, preenche ambos os riquistos.

Ferris Bueller's Day Off (1986): Todos gostávamos de ser a personagem que larga tudo para fazer gazeta por um dia, não é verdade?

Alien (1979): Ação no seu melhor, Scott Ridley mostra-nos que as mulheres também podem ser heroínas sem que para isso precisem de uma capa ou poderes!

Guardians of the Galaxy (2014): Uma das novidades desta década que mostrou que ainda é possível aliar a comédia à ação, com a amizade como plano de fundo, além de que é baseado numa comic da Marvel.

Big (1988): Inesquecível para quem cresceu entre os anos 80 e 90, este filme mostra que existe uma criança dentro de cada adulto.

Do the Right Thing (1989): Spike Lee no seu melhor, com uso do humor para expor um conflito inter-racial.


Texto originalmente redigido por mim para a Revista SPOT.

Love Actually...


Esta semana, com os dias quentes cada vez mais próximos e com eles os romances de verão, resolvi partilhar uma lista de 10 filmes que retratam como as relações, mesmo as mais intensas, são na vida real, sem os floreados e filtros “hollywoodescos”, sem as declarações poéticas e serenatas à janela que anulam todos os erros cometidos, sem, em suma, o final feliz pelo qual lá no fundo todos esperamos. Eis 10 doses de realidade, que não devem perder:


Blue Valentine (2010), de Derek Cianfrance
O filme conta a história de um romance que começa de uma forma terna, digno de um filme da Disney, mas que acaba por não resistir da melhor forma ao tempo. Ryan Gosling e Michelle Williams são os protagonistas, que nos fazem rir e chorar sem piedade.


Her (2013), de Spike Jonze
A dicotomia homem-máquina prevalece e atinge um novo patamar: o amor. Mas nem as máquinas são “perfeitas” e por vezes também elas “crescem” de forma diferente ao longo do tempo, querendo cruzar novos horizontes.


Closer (2004), de Mike Nichols
Várias histórias cruzadas são-nos apresentadas de uma forma caricata, entre traições, sensualidade e desilusões, o filme demonstra que os sentimentos não resistem a tudo, por vezes perto demais pode significar também estar-se já bem longe.


500 Days of Summer (2009), de Marc Webb
Por vezes, não encaramos os sinais e esta película mostra-nos isso na perfeição, como as expectativas podem defraudar quem está apaixonado e revelar que nem sempre somos almas-gémeas de quem pensamos e que a vida continua.


An Education (2009), de Lone Scherfig
Passado nos anos 60 nos arredores de Londres, o filme mostra uma adolescente seduzida por um “bon vivant” com o dobre da sua idade que muda o rumo da sua vida...


In a Lonely Place (1950), de Nicholas Ray
Esta obra revela que a confiança é um ponto fulcral nas relações e que, quando essa não está na base, pode ser bastante fácil começar a duvidar da nossa cara-metade.


Les Chansons d'amour (2007), de Christophe Honoré
A história de um romance a três que o destino trata de agitar culminando num desfecho tudo menos previsível.


Atonement (2007), de Joe Wright
Por vezes uma má interpretação da realidade pode impedir um grande amor, tendo consequências graves e definitivas.


Les Amants du Pont-Neuf (1991), de Leos Carax
Um amor cru e irracional, desenvolvido no meio da miséria humana, numa ponte, ao som do nada e de tudo.


UP (2009), de Pete Docter e Bob Peterson'You don't talk much. I like you!' - Mas às vezes não vasta gostar, quando a mortalidade existe. E em apenas 10 minutos, percebemos isso neste filme de animação comovente.


Texto da minha autoria, escrito originalmente para a Revista SPOT.

Crítica: Batman V Superman: Dawn of Justice


Batman v Superman: Dawn of Justice é o filme que todos-queremos-não-ser e que provavelmente fez o Joel Schumacher se sentir um bocadinho menos mal com os seus filmes sobre o cavaleiro das trevas. Diga-se que além das incontáveis plot holes, deixas ridículas, interacções entre as personagens ainda piores sem qualquer tipo de cumplicidade, assistimos a cenas introduzidas de forma forçada que remetem a outros super-heróis de modo a "gritar" aos ouvidos do público que o universo DC será estendido a outros super como Flash (que além de viajar no tempo agora também dá uma de Freddie Kruger), Aquaman e o Cyborgue. Aquele momento em que é aberto o ficheiro com os logos dos super é completamente non-sense, porque razão o Lex Luther teria pastas com logos (em alguns casos inexistentes por os super se esconderem sem fato como se assiste nos vídeos) num computador?!...Mais, porque é que tão depressa o Batman está determinado em matar o Superman e só por ouvir o nome da "mãe" (que é o mesmo da mãe dos dois heróis) passa a ser "amigo forever", isto em segundos passa do 8 para o 80, e vai salvar a mãe do Clark que até ao momento o mesmo herói não fazia ideia onde estava mas por outro lado faz sempre ideia onde está a Lois Lane...Contudo, tudo piora. Ou não fosse a personagem de Lex Luther totalmente colada ao Joker do Heath Ledger, é impossível não pensar nele devido ao caos que a personagem provoca, à loucura, mesmo devido à indumentária e cabelo, com um temperamento louco e sem razão aparente, a culpa certamente não é do ator Jesse Eisenberg que fez bem a sua função, mas sim da falta de originalidade e desenvolvimento proposta para a personagem.

O climax no filme não chega a existir em momento nenhum. A cena final que deveria deixar o público perplexo é apenas desanimadora, no sentido em que é demasiado fácil matar o Super-Homem. Tanto que parece brincadeira de criança, uma espécie de ejaculação precoce em filme. Afinal o "Homem de Aço" não é assim tão resistente e mesmo que a "Morte de Superman" seja um ponto clássico das bd's, isso não impede que o confronto fosse mais bombástico e repleto de tensão para exacerbar as emoções do público-fã. E o romance entre a Lois e Clark é enjoativo, não existe química alguma entre os dois atores e/ou personagens. Dá vontade de "desviar o olhar" ou ir depressa à casa de banho para evitar ver aquele momento lamechas, novelesco. Até o vilão, o Doomsday é visualmente pouco credível, uma mistura entre uma tartaruga ninja do Michael Bay (sim, as piores!) e o troll do Senhor dos Anéis (mas sem o pormenor da genitalía pendular), com poucos momentos de verdadeira ação pelo menos de contra-ataque por parte do início daquilo que será a Liga da Justiça. Praticamente a Wonder Woman apenas se defendeu - um aparte, o cast estaria bem para Catwoman devido à sensualidade da atriz, agora para Wonder Woman pareceu-me altamente descolada fisicamente sobretudo (afinal ela é uma amazona e não uma manequim!) daquilo que a personagem é e transmite no mundo dos quadradinhos, embora tenha algumas similaridades com a da série animada "Superman/Batman: Apocalypse" penso que isso não chegará para um filme a solo de sucesso ou pelo menos para ser relembrada mais tarde -, o Superman apenas foi dar a tentativa final de golpe altamente suicida sem nenhuma grande luta à priori que fizesse aquecer o coração do espectador e, pior de tudo, o Batman deu uma de cobarde em várias cenas do filme em que se afasta ou recua mostrando "receio" algo que é pouco característico, senão mesmo nada, desta personagem que é altamente calculista e estratega. E, para último, mas não menos importante, é a pior escolha de cast de sempre para Alfred. Qual foi a ideia? A sério...Parecia que víamos uma espécie de Gordon, em vez do fiel mordomo que criou Bruce.

Zack Snyder conseguiu uma vez mais afundar um filme com os seus exageros. Quer visuais que remontam a um Gotham e Metropolis mais cartonesco, quer narrativas que saltam pontos cruciais da história aos quadradinhos e pega noutros que não têm ligação aparente pelo menos para quem não segue em papel a história. Isto é um erro crasso, que felizmente a Marvel-Disney não cometeu na sua extensão e união de universos que resultou tão bem, que chega a ser próximo de perfeito por ter a capacidade de juntar tantas personagens e mesmo assim conseguir dar tempo de antena a cada uma delas sem obrigar o público a engolir tudo num só gole.

Batman v Superman: Dawn of Justice é aborrecido. Faz-nos bater palmas quando finalmente o Super-Homem morre de tão entediante que é, faz-nos desejar que a Lois seja levada também para debaixo de sete palmos de terra e faz-nos rir pelos momentos ridículos que consegue atingir sem nenhum tipo de genialidade directiva ou performativa.

Representar também é coisa de crianças!


Representar é um talento que pode ser desenvolvido, mas que advém de um dom inato. Prova disso, são as performances de vários atores em criança, que, ainda hoje, são (re)vistas com admiração e reconhecimento na historia do cinema. Embora alguns tenham acabado por se afastar da ribalta, ora indagando por carreiras noutras áreas ora abusos de substâncias, muitos são aqueles que asseguraram nessas primeiras aparições um lugar ao sol, que permanecerá imortalizado na memória dos seus fãs.

Eis uma lista de alguns dos papéis que merecem especial menção, onde podemos ver caras bem conhecidas numa tenra idade a dar cartas no campo da representação e a fazer inveja a muitos atores adultos...


Aos 13 anos, Natalie Portman brilhou no filme «Léon – The Professional» numa personagem que pouco tinha de criança: era assistente de um assassino profissional.


Também aos 13 anos, Christian Bale mereceu os olhares atentos do público em “Empire of the Sun” - um filme de Spielberg, sobre guerra e com uma forte carga dramática - , onde não passou despercebido.


Kirsten Dunst abraçou, aos 12 anos, o papel de vampira com unhas e dentes no burlesco filme de época «Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles».


Com apenas 12 anos, embora parecesse ter bem mais, em «Taxi Driver» temos Judie Foster num papel memorável como prostituta a contracenar com o grande De Niro.


Haley Joel Osment, aos 11 anos, em “The Sixth Sense” rouba completamente as atenções do filme para si, num papel convincente que tem tanto de intenso como de perturbador.


Tatum O'Neil não deixa ninguém indiferente com a sua performance em «Paper Moon», com apenas 10 anos, foi, e continua a ser, a mais nova atriz a ganhar um Oscar!

CRÍTICA: «High Rise» (2015), de Ben Wheatley


Os visuais fazem lembrar o retro-futurismo de Kubrick, acompanhados pelo surrealistíco tom de Buñuel e o imaginário de Carax numa orgia metafórica de ascenção social e lutas entre classes, tudo num único lugar, num tempo que já foi mas que nem por isso se torna mais datado.


Tom Hiddleston coloca a sua personagem como o ponto central e seguro de toda a narrativa que se muta até atingir um patamar explosivo e irreconhecível de sexo, violência e absurdez. A personagem de Tom e o seu apartamento são um lugar neutro, cinza como as cores que escolhe para pintar as suas paredes, todavia esconde em caixas a sua própria bagagem pessoal que vai abrindo à medida que ascende de patamar social e se aproxima daquilo que pretende.


«High Rise» é uma distopia que mostra as (ainda) atuais convenções sociais e limites extrapolados ao máximo pelo Homem. Em vez de num plano lato o fazer no mundo, o escritor (J.G. Ballard) que criou a obra-base escolheu apenas um prédio para fazer a crítica social e ao mesmo tendo dando uma facada no capitalismo.

Hitchcock - O Mestre do Suspense


Odiado por alguns, amado por muitos, Alfred Hitchcock é/era conhecido pelo seu humor negro peculiar, pelos curtos cameos nos seus próprios filmes e pelo suspense que tão bem sabia proporcionar no coração do público, à sua maneira tão especial, em cada uma das suas obras. Era também o cineasta que tinha um especial fascínio pela morte, pássaros e mulheres louras. Tinha medo de ovos, sem explicação. Era a silhueta inconfundível e a voz provocadora que esteve presente em muitos dos seus criativos anúncios de thrillers. Com uma forma inovadora de editar as suas películas, embora simples tecnicamente, o realizador, de muitas grandes obras entre as quais «Vertigo» e «Psycho», pensava e filmava cada cena de modo a provocar ansiedade, medo e, ou até, empatia junto do espetador. Manipulador, mas de uma forma positiva, o mestre do suspense nunca filmou uma única cena sem meticulosamente pensar na melhor forma de a executar, numa relação de “gato-rato” - entre o público, narrativa/desfecho. Tanto que o mesmo tinha “medo” dos seus próprios filmes, como confessou numa entrevista em 1963: “I’m frightened of my own movies. I never go to see them. I don’t know how people can bear to watch my movies”. O medo ilógico, fobia, injetado habilmente em cada película era o seu grande trunfo: “But what is logic? There’s nothing more stupid than logic.”. A sua audácia e humor negro inteligente eram inconfundíveis e apreciados por muitos, mas também por vezes receado por outros que naquela era tinham alguma dificuldade em aceitar a sua genialidade, vista como neurótico. Walt Disney foi um desses exemplos, recusando-se inclusive a trabalhar com o realizador por essa razão... Hitchcock nunca foi um cineasta sério. Fazia questão de o mostrar; numa cerimónia dos Oscares, fez o mais curto discurso da história do cinema com um «Thank you!» em resposta ao desprezo da academia em o galardoar. Apesar de brilhante, Hitchcock nunca chegou a ganhar um Oscar de Melhor Realizador. Essa foi uma das muitas vezes que a academia não reconheceu convenientemente um dos maiores cineastas da história do cinema (apenas o seu filme «Rebecca» ganhou na categoria de Melhor Filme). Porém, felizmente, temos toda uma extensa obra para apreciar - e comprovar por nós mesmos o seu valor inquestionável enquanto realizador - que a cada repetição de visionamento se torna mais rica, com castings sempre soberbos e histórias de nos fazer bater o pé devido ao nervoso miudinho que tão bem «O Mestre» soube sempre criar dentro de nós...Seja com o simples «The Rope» passado numa única divisão ou o mais amplo «Birds», todos os seus filmes são um pedaço de arte que valem a pena apreciar e guardar!

Escrito originalmente para a Revista SPOT.

CRÍTICA: «Hail, Caesar!» (2016), by Ethan Coen e Joel Coen



Os irmãos Coen têm interessantes obras mais antigas como «Fargo» ou o mais popular «The Big Lebowski», assim como mais recentes o «No Country for Old Men», no entanto ao longo dos anos foi-se ressentindo o cansaço e dificuldade de inovar dos mesmos. A originalidade e estilo inconfundível começa a parecer cada vez mais baço, numa tentativa de continuar com o cunho de autor e ao mesmo tempo cativar a academia. Aquela ousadia própria da dupla parece ter caído, então, por terra com este último filme - «Hail, Caesar!». Oco, bacoco, inócuo - podem escolher o adjetivo...


A verdade é que é impossível não perceber um certo desmazelo na narrativa, direcção e mesmo rumo de cada personagem que são em geral todas planas, embora aquela que dá voz aos offs, que nem chega a ser bem a principal, tente ocupar um estatuto superior a isso, sendo tomada por um cliché ridículo de interpretação. 


O rumo do filme poderia seguir algo semelhante a «Trumbo», no que diz respeito à exploração intensificada e profunda da relação comunista e de Holywood dessa altura, mas fica-se por uma abordagem superficial cómica (o cómica, não é o problema, com os Coen tamos acostumados a encontrar essa pitada de humor, mas o superficial nem por isso).



Temos atores de diversos meios, caras bem conhecidas, mas que pouco ou nada resultam a encarnar a personagem. Olhamos e vemos Clooney, Scarlett, Brolin e Tantum. Não vemos as personagens! Temos um desfilar de famosos, que ocupam e roubam a narrativa que é fraca, pobre, aborrecida. As histórias cruzadas já próprias de alguns dos seus filmes continuam, mas, mesmo assim, devido ao pouco tempo de antena, isso não as remete a algo surpreendente. O público fica na mesma. Vê os créditos a rolarem e percebe que afinal foi "apenas isto". Sem "Hail Coen"!

Filmes que vi: «La grande bellezza»





As referências de Tarantino


Quentin Tarantino's Visual References from Jacob T. Swinney on Vimeo.

A tão merecida corrida ao Oscar...


Passada a cerimónia anual dos Oscares, prémios de cinema que hoje são mais um ritual do que propriamente sinónimo de qualidade das obras nomeadas, surgiu como polémica a nomeação, e consequente congratulação com a estatueta dourada, do ator Leonardo DiCaprio. Aos 41 anos, conta com uma extensa e diversificada filmografia (sem contar com os papéis em séries televisivas): começou com papéis menos convencionais, como em «What's Eating Gilbert Grape», passando por papéis de “menino bonito”, como em «Titanic», e fez nos últimos 15 anos papéis de grande relevância ao lado de excecionais cineastas, dos quais se destaca Martin Scorsese. No início dos anos 90, «This Boys Life» é o filme que dá o primeiro papel relevante a DiCaprio, dividindo a tela com Robert De Niro, no papel de pai abusivo. Na mesma década, «What's Eating Gilbert Grape», de Lasse Hallström, apresenta-nos um Leo ainda criança, mas com um talento incontestável, na pele de autista, ao lado de Johnny Depp. No final dos anos 90, «The Basketball Diaries» é o seu primeiro filme como adolescente; com um papel de extremos vemos o ator a passar de um jovem comum a um viciado em droga. «Romeo + Juliet», de Baz Luhrmann (com o qual mais tarde acaba por fazer também «The Great Gatsby»), é mais um registo diferente, embalado por nuances da obra original, mas modernizada de Shakespeare. 1997 é o ano que torna Leo conhecido mundialmente, embora não seja a sua melhor atuação, é uma das mais populares, ao lado de Kate Winslet, na película de James Cameron - que envelheceu mal com o passar do tempo aos olhos da crítica. Sem nunca parar, no ano seguinte, trabalhou com Woody Allen, num filme que poucos recordam, mas interessante, em «Celebrity». 2000 foi o ano de Danny Boyle dirigir o jovem ator em «The Beach»... Até que em 2002 DiCaprio trabalhou pela primeira vez, em «Gangs of New York», com o realizador, que viria a fazer mais tarde diversas vezes dupla («The Aviator», «The Departed», «Shutter Island» e «The Wolf of Wall Street»), Martin Scorsese. Mas o leque de realizadores de renome não ficou por aqui, Leonardo DiCaprio trabalhou também com outros aclamados cineastas: Steven Spielberg no divertido «Catch Me If You Can»; Edward Zwick no intenso «Blood Diamond»; em «Body of Lies» com Ridley Scott; com Sam Mendes no dramático «Revolutionary Road»; em «The Inception» com Christopher Nolan; com Clint Eastwood em «J. Edgar»; no papel de vilão em «Django» dirigido Quentin Tarantino; e por fim em «The Revenant» com Alejandro Iñárritu, que lhe deu o papel que finalmente o levou a alcançar o tão merecido prémio, o Oscar de Melhor Ator, mesmo que este não seja o seu melhor filme e/ou papel (para mim, foi em «The Aviator» ao dar corpo a Howard Hughes), é mesmo assim uma exímia performance física, onde o ator se transforma mais uma vez para nos impressionar!

Texto originalmente escrito para a Revista SPOT.

SW Rebels: para além do universo dos filmes!


«Star Wars Rebels» é uma série de animação que procura estender o universo já conhecido nos filmes da saga intergaláctica mais famosa do planeta. Integralmente feita em CGI, é uma produção da LucasFilm e da Lucas Film Animation, tendo tido a sua estreia num canal da Disney com um especial de uma hora.

O tempo da história é situado 14 anos depois do III episódio «Revenge of the Sith» e cinco anos antes do IV «A New Hope», altura em que o Império quer dominar a galáxia e apanhar os últimos Jedi.

A história foca um grupo que, continua a fazer frente à ameaça do Império, isolados na sua nave espacial, que salta de aventura em aventura, é constituído por seres bastante diferentes em espécie, género e idade; incluí até um droid C1-10P, Chopper, com um humor bastante peculiar (bem diferente dos outros droides) e que apimenta os momentos mais hilariantes da série. Também à semelhança dos filmes, existe um mestre e um aprendiz do lado da luz, que vemos a evoluírem ao longo da série ao mesmo tempo que enfrentam o dark side.

Embora seja uma série passível de ser vista por um público diversificado, nota-se a inclinação para o espetador mais jovem com personagens com as quais ele se poderá identificar. Por exemplo, a personagem mais jovem Ezra tem apenas 14 anos, começa com um comportamento duvidoso e passa a pertencer mais tarde à causa rebelde que abraça em memória dos seus pais. Sabine (Mandalorian) é também jovem, com uma idade pouco precisa, mas faz grafittis e domina os engenhos explosivos, tem também uma atitude radical perante as situações que o grupo defronta. Depois temos personagens adultas, das quais apenas Kanan (Jedi mestre de Ezra) é humano, sendo que depois existe Hera (Twi'lek) que comanda a nave e Zeb (Lazat) cuja imagem é inspirada em Chewbacca. Para além das personagens do lado da luz, temos as do lado das trevas, das quais se destaca The Grand Inquisitor que obedece directamente a Darth Vader. A missão deste vilão é apanhar todos os jedi que restarem e levarem os padawans para o dark side.

Pensado de forma inteligente, é ainda a aparição de alguns cameos de personagens conhecidas como os droides R2D2 e C-3PO, bem como alguns easter eggs que remetem aos filmes.

Para quem acabou de ver o mais recente filme, e quer mais SW, nada melhor do que ver esta série enquanto espera pelo próximo episódio da saga!


Texto originalmente escrito para a parceria com o blogue Tripulante Nerd.

‎CRÍTICA‬: «Ex Machina» (2015), de Alex Garland


Embora tenha uma estética exímia, com uso do CGI muito bem executado, o filme perde pela sua previsibilidade no que diz respeito ao desfecho, enfadando com os planos longos de contacto entre as personagens e sensações vincadas ora seja entre o homem e a máquina ora da própria máquina com a ideia de pertencer ao mundo real sem ter de obedecer ao seu criador. O que empobrece o filme também passa pela bagagem de cada espetador que poderá, ou não, ter visto mais obras semelhantes à mesma, onde o cyberpunk, AI, e outros assuntos inerentes, já foram tratados anteriormente deste o «Metropolis».
No entanto, este é o primeiro filme do realizador, que antes apenas trabalhou como argumentista (screenplay) junto de filmes como «28 Days Later...», «Sunshine», «The Beach» e «Never Let ME Go» - na sua maioria interessantes filmes com alguns tragos de sci-fi, tal como este seu primogénito. Neste sentido, mesmo que «Ex Machina» tenha ficado aquém do hype que o tornou mais popular, não deixa de ser um interessante filme onde alguns problemas são mais uma vez levantados subjacentes ao "poder" de criar outro "ser" e/ou de forma mais simplista AI. E vemos pela terceira vez este ano (em que saíram os Oscares: «The Revenant» e «Brooklyn») Domhnall Gleeson a abraçar um intenso papel, onde não há sombra de dúvidas que deixa uma boa impressão! Para não falar de Alicia Vikander que, depois de ser vencedora na categoria de Melhor Atriz Secundária nos Oscares, mostra que é versátil com um papel bem diferente do que fez em «The Danish Girl» e em «The Man from U.N.C.L.E».

CRÍTICA‬: «Zootopia» (2016), da Disney


É o filme que todos os adultos, jovens e crianças querem ver com um humor muito inteligente e uma mensagem de resiliência e tolerância, muito indicada para os dias de hoje, mesmo que intemporal. A narrativa é simples, mas bem construída, embora tente incluir dois twists que se revelam um pouco previsíveis, mas que não tiram por isso fofura e piada a cada cena que nos é apresentada sucessivamente com diversos animais, dos quais são destacadas algumas das suas características para entreter e animar o grande público. Não é de estranhar, pois, que «Zootopia» tenha batido records de bilheteira de pré-estreias nos EUA e que vá ser possivelmente um dos filmes mais rentáveis da produtora. A Disney mostra assim que depois de «6 Big Hero» conseguiu conduzir bem a sua atualização sem a Pixar aos tempos modernos da animação, abandonando apenas os contos onde princesas e fadas têm um importante papel, onde a mulher é frágil e espera pelo príncipe encantado, passando a dar força ao sexo feminino (algo que também temos visto nos últimos filmes - Brave e/ou Star Wars). Assim, a Disney ultrapassou de algum modo as produções conjuntas com a Pixar («Up» e «Inside Out»), sendo que esta última lançou o flop «The Good Dinosaur» no ano transacto, enquanto a Disney premeia o espectador com esta animação audaz e desafiadora, bem mais adulta e apta para ser recebida por um público mais heterogéneo.

O sabor do cinema


O cinema pode ainda não ter sabor, mas muitos são os filmes capazes de deixar-nos com água na boca. A gastronomia é assim um tema que serve como pano de fundo muitas obras que compõe a história da Sétima Arte, roubando muitas vezes a atenção do público. O ato de comer, beber, cozinhar e alimentar é sinónimo de prazer, felicidade e sexualidade, mexe com os nossos sentidos, concedendo uma textura única a cada história. A receita para isso pode ser vista em alguns dos títulos que se seguem:

«Sideways» (2004)
Um par de amigos decide viajar durante uma semana, um deles apaixonado por vinho e também depressivo (Paul Giamatti), aposta numa viajem pelas vinícolas californianas. Ao mesmo tempo que degustam vinhos, conhecem duas mulheres que inflamam os seus corações.


«Volver» (2007)
Pedro Almodovar mostra Penelope Cruz em mais uma das suas histórias, nesta a personagem dotada para a cozinha assume um restaurante sem clientes, até ao dia em que tudo muda...


«Eat Drink Man Woman» (1994)
Os ingredientes estão na mesa: comédia, romance e drama não faltam nesta película de Ang Lee, onde uma família é-nos apresentada, encabeçada por um chef de cozinha que demonstra o seu amor através das mais incríveis receitas gourmet.


«Delicatessen» (1991)
Esta comédia de humor negro retrata um cenário pós-apocalíptico, no qual a comida é tão escassa que é usada como moeda de troca. A história roda em volta de um prédio cujo proprietário mata os seus inquilinos para vender a carne destes e garantir assim a sua sobrevivência. Um filme que tem tanto de grotesco como de belo, da dupla de realizadores Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet.


«Chocolat» (2000)
Uma mulher, com uma filha, abre uma loja de chocolates numa pequena vila de França. Enquanto se tenta adaptar aos costumes moralistas da região, surge a personagem desempenhada por Johnny Depp, um cigano que torna todo o processo mais difícil, envolto pela sensualidade do chocolate.


«9 ½ Weeks» (1986)
Tem uma das cenas mais divertidas e sensuais com comida na história do cinema, sendo muitas vezes intitulado como o «The Last Tango in Paris» dos anos 80. Um drama erótico, onde uma relação tem contornos mais complicados no meio de diferentes jogos sexuais.


Texto originalmente redigido para a Revista SPOT.

















#Crítica: «Trumbo» (2015), de Jay Roach


É engraçado como, por vezes, aqueles filmes que não temos interesse em ver se revelam interessantes e belos. «Trumbo» é um deles. O realizador Jay Roach pega numa história biográfica que poderia ser linear na sua narrativa, mas opta por uma forma mais arrojada de a contar, misturando épocas diferentes da história de Hollywood, e portanto do cinema americano, com dimensões diferentes da própria personagem principal - entre o que ela acha que é/quer ser e acaba por ter consciência de que não pode ser. O filme está longe de ser um drama familiar, é um filme intenso, com complexas críticas e reflexões sobre a forma como a indústria e sociedade age de acordo com a informação veiculada (neste caso ligada a opções partidárias) com organismos superiores ou mesmo os próprios media. Para além disso, escava ainda mais, vai bem fundo, até que chega à própria consciência do protagonista, Trumbo, que ao contrário de muitos personagens não concretiza propriamente os seus ideais primordialmente nobres de procura de liberdade política, mas, antes, mesmo depois de toda a "caminhada", repleta de sacrifícios sobretudo pessoais, percebe que muitas vezes existem aspectos mais valiosos na nossa vida que ignoramos poder vir a perder, bem mais do que valores sociais, sendo neste caso a sua própria felicidade e família. E desta forma a película acaba por partir dos ideais e crenças de um grupo de defensores políticos (comunistas) e indaga nos debates existencialistas da própria personagem Dalton Trumbo, interpretada pelo grande Bryan Cranston (conhecido essencialmente pela série «Breaking Bad», que o lançou tarde na ribalta mas a tempo de mostrar o seu valor) que agarra a personagem com unhas e dentes, que nos faz SENTIR, cada minuto do filme, como se o conhecêssemos e torcêssemos para ser capaz de alcançar a meta merecida...Ao seu lado, temos também os actores que dão corpo à sua família, tirando os dois filhos mais novos, temos a esposa desempenhada pela mais que conhecida Diane Lane que faz jus ao papel abraçado e também a jovem revelação (que tem vindo a trabalhar consecutivamente nos últimos anos desde que se estreou depois da sua irmã) Elle Fanning que mostra que merece o prestígio que tem vindo a seguir o seu nome. Temos também Louis C.K. num papel que lhe assenta bem (mas um pouco próximo do da sua personagem na série homónima) e a magnífica Hellen Mirren que com a idade parece estar cada vez mais ciente das suas capacidades como atriz, que brilha, num papel de "vilã" e nos faz sentir que mesmo assim adoramos vê-la no grande ecrã com tanto vigor e pujança ainda aos 70 anos! De resto, todo o elenco tem uma boa prestação, nota-se que houve um trabalho intenso em conseguir distribuir as atenções do público ao longo dos diversos intervenientes que entram no "comboio figurativo" de Trumbo, ao mesmo tempo que é impossível desviar o olhar de Bryan Cranston!

Para alguém que é apaixonado por cinema, é difícil não gostar deste filme. É um pedaço de história que mistura menções a diversos atores populares (como John Wayne e Kirk Douglas) e conhecidos realizadores (fazendo mesmo menção a Otto Preminger e Stanley Kubrick e ao seu feitio particular), para não falar dos títulos dos filmes que vão sendo revelados e nos deixam um sorriso na cara, quase como uma estampa de felizes-culpados por percebermos a referência aos mesmos. Temos títulos e trechos de uma mão cheia de filmes influentes, como o fabuloso «Roman Holiday», «Spartacus», «The Brave One», «Exodus». e muitos muitos outros, que são indicados como obras escritas por Trumbo usando outros nomes, uma vez que estando na Lista Negra não podia escrever...

A caracterização das personagens ao longo da passagem dos anos é também admirável, se não mesmo exímia! A nível psicológico isso também afecta as mesmas, sendo que nos são apresentadas diferentes fases e formas de agir, tornando as personagens reais e multi-dimensionais; algo que tem faltado muito no cinema americano, seja por preguiça ou incapacidade, mesmo nos nomeados percebemos isso predominantemente formatados pela simplicidade dos blockbusters.

«Trumbo» é um filme intemporal, mesmo que a sua história seja passada nos anos 40, tudo o que vemos é bastante atual e pode ser aplicado a outros episódios de maior escala que assistimos todos os dias em que organizações e personalidades e/ou opinion makers diabolizam determinados grupos e/ou indivíduos menores ou com capacidade de mudança, de forma a controlar, a fazer os seus interesses prevalecer .

Para mim, foi um dos filmes mais emocionantes que assisti que está na Corrida aos Oscares 2016, mesmo que apenas com a nomeação A Melhor Ator. É inacreditável que não figure na lista dos nomeados a Melhor Filme, especialmente quando temos obras regulares ou mal amanhados como «Spotlight» ou «The Big Short», onde a fama parece ser maior que o proveito. É pena que «Tumbo» não tenha tido a atenção merecida, especialmente porque é um filme que fala de cinema, crítica e homenageia, expõe o bom e mau, mas mais que tudo isto conta a história sem filtros de uma época turbulenta em que o argumentista Dalton Trumbo foi importante e decisivo para devolver os dedos às máquinas de escrever de tantos profissionais da área que nos fizeram chegar os grandes filmes que vemos hoje.

A revolução e estratégia é algo realmente digno de um filme e está neste expresso, mostrando que a resiliência por vezes compensa mas também pesa, deixando muita dor e sacrifícios pelo caminho. Tudo isso é-nos mostrado quando na cena final o argumentista finalmente consegue o reconhecimento que tanto queria, mas que para tal muito perdeu não escondendo essa longa jornada e lembrando todos os que estiveram nela.

Com cerca de duas horas, «Trumbo» causa-nos uma amálgama de sensações: entre simpatia, revolta, sorrisos (muitos dado o humor delicioso da personagem) e lágrimas, percebemos que nem tudo é preto ou branco, percebemos que ninguém é totalmente inocente ou culpado e que o mundo real é bem mais complexo do que tudo isso.

CRÍTICA: «Carol» (2015), de Todd Haynes


Do mesmo realizador de «Far from Heaven» e «I'm Not There», chega-nos «Carol», que contrariando os outros dois filmes mencionados tem muito pouco de inspirador ou interessante. Temos no filme de Todd Haynes uma história banal onde duas pessoas, com a única particularidade mais distintiva de serem ambas do sexo feminino, de idades e estatutos sociais diferentes, se conhecem por acaso e desenvolvem uma repentina relação. Esperava-se desta descrição bastante química, carnalidade e/ou pelo menos emoção, mas não «Carol» apresenta-nos uma relação morta desde o primeiro segundo, onde a paixão entre as personagens não se faz sentir no outro lado do ecrã, sem que a descrição exigida pelo tempo (anos 50 em que um escândalo íntimo era algo muito grave para a reputação) em que passa o filme seja a justificação para tal...Prova disso é o salto entre um "Olá, prazer" para um "Anda a minha casa antes do dia de Natal ajudar a fazer rabanadas", que torna fugaz as ações das personagens, diminuindo também a sua multidimensionalidade e a possibilidade de assistirmos ao desenvolver de uma relação entre pessoas do mesmo sexo - algo que pelo que percebemos é o tema central do filme. Supostamente a ideia, pelo menos segundo a sinopse, seria mostrar o desenvolvimento de uma relação íntima de uma aspirante a fotógrafa com uma mulher mais velha, contudo pelas razões já mencionadas o filme faz sentir que há muito pouco de intimo nesta súbita relação que começa do dia para a noite e também assim acaba...Também podíamos falar que «Carol» nos faz pensar na questão de busca de identidade, mas não será isso muito limitador e primário neste contexto? Ou ainda a ideia de que a personagem desempenhada por Rooney, Theresse, apenas se torna uma "mulher" (com opinião crítica, personalidade, senso de moda, determinada, bem sucedida...) quando define a sua sexualidade ou pelo menos tem a sua primeira relação sexual? Sentimos algo entre o 8 e o 80, por tentar contar a história por vezes sem os filtros novelescos de Hollywood e outras vezes por mergulhar nessa romantização pouco natural, com deixas cliché que minimizam o amor entre o mesmo sexo, sem nunca encontrar um equilíbrio.

Para além de Cate Blanchett, que brilha como sempre mesmo com um papel mais plano que o natural mas com uma presença inata indubitável,Rooney Mara aparece apagada e alienada com um visual forçado àAudrey Hepburn cujo número de falas está entre as 5 e 10 linhas das duas horas de filme! De resto, todas as personagens que aparecem e desaparecem em pouco tempo têm um papel muito pouco importante ao longo do filme, quase como se fossem desnecessárias e pudessem ser desempenhadas por extras.



Os pontos mais positivos do filme são, sem sombra de dúvida, o guarda-roupa, a cena final em que Carol diz a Harold durante o processo de divórcio "We are not ugly people, Harge!" por finalmente haver alguma intensidade e pseudoclimax no filme e a forma como é demonstrada a "american way" através da estética, optando por fidedignos e belos cenários.

Em «Mildred Pierce» e «Far from Heaven» temos Haynes a colocar as mulheres num papel superior de quase heroínas, mulher vs sociedade, em momentos que a sociedade achava atos hoje comuns algo de chocante e negativo ao ponto de as penitenciar de algum modo, em «Carol» percebemos a intenção de fazer o mesmo todavia isso não acontece; existe algo de pouco empatizante e distante nas duas personagens e na sua relação, não por uma questão de estigma, mas de ausência de sentimentos (que pelo menos pareçam fortes e autênticos para parecerem minimamente reais)...Com isto quero dizer que não sentirmos estar a assistir a um romance que levasse uma mulher madura a perder a sua filha; há uma certa crueza e ausência de intensidade que no máximo nos faz pensar que o fez por si mesma, apenas, minimizando o teor do drama.

Há também neste filme uma aproximação clara a «My Fair Lady» com a apresentação de uma mulher madura, experiente, requintada e mãe de família e de uma jovem simplória e vislumbrada pela curiosidade de exploração de um "novo mundo" (sentimental, sexual e societal) sem saber dizer nunca "Não" a nada!

«Carol» bem poderia ser como outros filmes do realizador uma bela película a ficar na memória, mas é apenas mais uma bobine para o amontoado de filmes vácuos que adornam a atualidade da indústria americana.

Desafio: Sabem a que filme pertence esta cena?


Deixem as vossas respostas nos comentários. Depois deixo a solução.

CRÍTICA‬: «Spotlight» (2015), de Tom McCarthy


Este ano temos alguns filmes baseados em factos reais como «Steve Jobs», «The Big Short» e «The Revenant» na corrida aos Oscares 2016. E também a esta lista podemos adicionar «Spotlight», o drama jornalístico que retrata a história verdadeira (que recebeu inclusive um Pulitzer) de como o jornal Boston Globe, mais propriamente a secção dedicada à investigação Spotlight, desvendou e publicou um escândalo de pedofilia massiva que envolvia padres, mexendo assim directamente com a Instituição Católica. A narrativa segue uma linha interessante mas ao mesmo tempo previsível, onde vamos conhecendo e chafurdando no core do problema, ao mesmo tempo que ficamos a saber como funciona a secção Spotlight que trata esse tipo de casos e os membros que a compõe; mais que tudo percebemos o que motiva os jornalistas a agarrar uma potencial história.

As personagens Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams), Matty Carroll (Brian d'Arcy James) e Walter Robinson (Michael Keaton) estão bem entregues, todos os atores cumprem perfeitamente o esperado sem haver nenhum que se destaque particularmente. Embora haja a tentativa de as desenvolver, nunca deixam de ser planas. Falta ao filme um lado mais humano, que deveria advir dos jornalistas. Ficamos pelo ressentimento de uns que não prestaram a devida atenção às informações dadas no passado, ou pela quebra com a ideologia católica ou ainda com o medo de o vizinho do lado ser o inimigo...O problema é que o levantar do véu é interessante, mas nunca chega a ser mais que isso...Ficamos por não saber muito bem que tipo de situação a personagem de Mark Ruffalo tinha com a mulher da qual estava separado (esta nunca aparece, apenas é mencionada), por exemplo. Pouco sabemos das personagens até ao fim. Temos uns momentos de dúvidas, em que o "rato" dentro da redação chega a ser quase real, mas que até ao final da história acaba por não existir, ficando-se por uma espécie de especulação ou falsas pistas.

Há muito em «Spotlight» que se fica pela intenção, mesmo que este seja um filme com uma história que merece sempre a nossa atenção devido à sua seriedade e perigo de fechar os olhos. Existem momentos mais tocantes onde as vítimas são confrontadas com as evidências dos abusos, aí percebemos como afetou o desenvolvimento das mesmas enquanto adultos, marcando-as para sempre. Algumas performances são arrebatadoras com relatos cruéis, de quem não tinha ainda maturidade suficiente para perceber o porquê de serem "os escolhidos", entre a admiração e sentimento de ser especial, entre o nojo e horror de ter deixado acontecer, o drama chega ao coração do público e não o deixa indiferente à realidade descoberta em 2001. Porque não foi só ficção, foi também real.

O filme do realizador Tom McCarthy dispensa qualquer tipo de efeito digital para o tornar apelativo, falando apenas por si enquanto história como nos velhos tempos do cinema. A atenção do público é presa ao longo das duas horas. McCarthy aposta numa abordagem linear, sem grandes truques de montagem ou câmara, sem explosões, sexo explícito ou outro tipo de adereço; e isso é de admirar nos dias de hoje. Principalmente num filme limitado geograficamente à cidade de Boston.

«Spotlight» cumpre aquilo a que se propõe, mas pouco arrisca ou surpreende, numa história regular sobre jornalismo e um grande caso que envolve corrupção que capta a atenção do público e é bem contada. Vale a pena ver, mas na história do cinema será sempre apenas mais um filme de redação, sem nada de inovador ou particularmente memorável.

CRÍTICA‬: The Hateful Eight (2015), de Quentin Tarantino


Não é exagero afirmar que apenas Tarantino poderia fazer isto. Quando me refiro a isto, falo da recuperação de um subgénero que surgiu nos anos 60/70, o spaghetti western, que diz muito pouco ao público (generalista), e torna-lo com o seu toque acessível e divertido numa oportunidade única para injetar implicitamente uma parte da história do cinema na mente dos espectadores.

No seu oitavo filme, o realizador de «Reservori Dogs» apresenta-nos uma nova história, na qual volta a reunir algumas caras conhecidas, recuperando Samuel L. Jackson como um dos pontos fortes do elenco, que brilha e nos relembra porque é um dos nossos atores preferidos. Kurt Russell tem também um papel bastante relevante, sendo mais uma vez o quase carrasco de uma personagem feminina (ainda se lembram de «Death Proof» e da sua personagem?) num papel nada simpático mas bastante divertido de um ponto de vista sádico. Temos ainda um outro renascer, no que diz respeito à carreira, falo de Jennifer Jason Leigh com um papel memorável, entre o repulsivo e cómico, a atriz faz jus aos seus anos de experiência e não deixa ninguém indiferente (a pelo menos querer espetar-lhe um tiro no meio da testa); a nomeação a Melhor Atriz Secundária é merecida. O restante cast também não desilude, atacando-nos com alguma nostalgia quando vemos Michael Madsen («Kill Bill» e «Reservoir Dogs») e Tim Roth («Reservoir Dogs» e «Pulp Fiction»).

A história, pode não ser a mais original e fascinante porém não é por isso que deixa de entreter durante as 3 horas de filme. Mesmo que longo, com alguns momentos já habituais de diálogo pausado e repetições propositadas para quase fazer o público abanar a perna de nervosismo, «The Hateful Eight» tem uma estrutura coesa, com a introdução das personagens no tempo certo, personagens que vão do 8 ao 80 em segundos, com humor, escárnio, ultraviolência, alguns momentos gore, crítica socio-cultural e abordagens de alguns assuntos sérios como questões raciais, guerras civis e relatividade legal.

Durante todo o filme, não temos um herói ou lado bom e mau, temos apenas 8 personagens enclausurados num estabelecimento, dos quais alguns escondem um segredo, esse que naturalmente será descoberto. A receita usada quase semelhante ao início de uma anedota cliché - onde estão tipos muito específicos fechados num bar, o negro, o carrasco, o inglês, o mexicano, o cherife, a fora-da-lei, o coronel - não se revela um floop, surpreendendo com um foco equilibrado em cada personagem, mediante a sua relevância para a história. De algum modo, o que também aprimora a experiência está no facto de o público não criar nenhuma empatia cerrada com as personagens apresentadas, pois todos são vilões à sua maneira, sendo que mais cedo ou mais tarde o demonstram ao público que assiste assim com a devida distância à história. As próprias personagens vão-se introduzindo, explorando o passado uma das outras, até porque algumas já se cruzaram ou têm algum tipo de conexão, o que concede às mesmas mais dimensionalidade psicológica. Cabe ao público imaginar e complementar com base nas pistas que tipo de pessoa é cada uma, com alguns paralelismos com outras do universo do realizador. Sobre isso, podemos perceber alguns easter eggs como o tabaco fictício Red Apple astutamente introduzido e já presente em filmes anteriores de Tarantino, ou menção a outros filmes quase como piada.

A primeira parte do filme pode ser encarada como uma introdução sem nenhuma cena que desperte uma ação, a segunda parte é onde realmente tudo começa a ganhar forma, optando por abandonar a linha narrativa clássica e mexendo com o público através de flashbacks, introduções em off, suspense, já a terceira parte abandona o estilo faroeste, parte para o climax, e lança a corda para se enlaçar noutras obras do realizador, sendo que o nível de violência aleatória e transversal faz lembrar «Death Proof», o exploitation onde também ninguém fica para contar a história...Tudo aquilo que conseguiu concentrar numa cabana, um lugar restrito e pequeno, povoado por personagens peculiares e misteriosas, onde o uso do 70 mm que amplia o ângulo de visão do espectador faz com que se contrarie essa ideia de espaço pequeno fechado, transformando-o num lugar maior, num palco intimista que conta com uma narrativa minimalista mas épica.

Visualmente, Tarantino volta a mostrar cuidado com a estética, falando também muito através dela, com momentos belíssimos que envolvem cenas na neve, o vestuário distinto da personagem de Samuel L. Jackson ou mesmo no interior da cabana nas cenas com mais sangue, tudo tem um sentido e intento para criar significado.

Embora não seja nem tente ser nenhum filme ao nível dos spaghetti de Sergio Leone (como a «Triologia dos Dólares»), é um tributo que tira da arca memórias para aqueles que têm presente o subgénero e que educa aqueles que provavelmente nunca ouviram falar no mesmo, isto tudo ao som do mestre sonoro Ennio Morricone que compôs para «The Hateful Eight» a sua primeira banda sonora em 40 anos de inatividade. O mais interessante, pelo menos para mim, é que Quentin Tarantino mantém algo que muitos realizadores perderam com o tempo a irreverência e capacidade de arriscar, inventando, ignorando regras, manipulando e divertindo, com um prazer que passa ao público, prazer esse que falta no cinema atual cada vez mais pretensioso e bacoco, repleto de experimentalismos inócuos e/ou intelectualismos forçados, que confundem homenagem com plágio, que fecham os olhos ao que realmente interessa: a arte de envolver o público.

‎CRÍTICA:‬ «Brooklyn» (2015), de John Crowley


Do mesmo realizador de «Boy A», é-nos apresentada uma história que tem algo de intemporal (por atualmente serem muitos os que deixam o seu país em busca de um emprego e qualidade de vida): a migração e a escolha que temos de fazer por uma nova "casa", essa que passa por finalmente deixarmos partir a saudade mascarada de perfeição que temos do local que abandonamos em busca de uma vida melhor. «Brooklyn» tem essa artimanha como a fórmula para puxar pelo coração dos espectadores e mostrar que tem valor, no entanto não tem a frieza e intensidade suficiente para convencer como grande filme, pelo menos na qualidade de obra nomeada para a categoria de Melhor Filme nos Oscares. Temos uma Saoirse Ronan irrepreensível no papel que veste, sendo a mesma irlandesa a dificuldade em interpretar a jovem dividida entre dois países torna-se menos árdua, o que nos leva a sentir que foi uma boa escolha de casting, contudo a parte boa multidimensional a uma certa altura acaba por ser confundida por algo mais básico, como se fosse uma menina iludida que em vez de escolher o seu próprio destino se deixa à revelia do que acontece aceitando-o apenas; essa é talvez uma imagem real do que acontece por comodidade e falta de resiliência, mas não a mensagem que gostaríamos de retirar do filme. Domhnall Gleeson aparece por breves momentos, mas não deixa de captar as nossas atenções, o que é muito bom sendo que este ano entrou em pelo menos 3 grandes produções - «The Revenant», «Star Wars», «Ex Machina».


A nível de fotografia, o filme também está bem trabalhado, notando-se a escolha meticulosa de cores para invadir os cenários com as emoções adequadas. Ora do sonho americano numa praia com tons de céu, ora numa Irlanda deixada para trás com tons mais escuros e deprimentes; ou vice-versa consoante muda a visão da protagonista.

Porém, o clímax nunca chega a ser verdadeiramente sentido, ficando-se «Brooklyn» por ser uma história bonitinha, daquelas que já foram dezenas de vezes contadas na história do cinema e que continuarão a ser.